Todo cuidado é pouco

Pesquisa da Hemominas busca desenvolver e padronizar uso de testes moleculares para detecção de vírus em pacientes que passaram por transplante de rins 

Por Tuany Alves – publicado originalmente na Revista Minas Faz Ciência nº 77

O rim é um dos órgãos essenciais ao bom funcionamento do corpo humano. É ele que, por meio de processos de filtragem, elimina toxinas e regula a formação dos ossos, assim como controla a pressão sanguínea e o balanço químico e de líquidos da pessoa. Seu funcionamento, entretanto, pode ser prejudicado por uma série de fatores, a exemplo de doenças, causas genéticas ou pouca ingestão de água.

Quando os rins já não funcionam corretamente, é necessário, por vezes, recorrer a tratamentos que tentem substituir sua função. A hemodiálise é o método por meio do qual o sangue é filtrado e devolvido ao corpo do paciente com menos impurezas. Já na diálise, uma solução especial é infundida e drenada no abdômen da pessoa, sem contato direto com a corrente sanguínea. Na maioria das vezes, se não houver possibilidade de transplante, o tratamento é feito para o resto da vida. Mesmo após a cirurgia para substituição do órgão, os pacientes podem apresentar problemas, como infecções virais.

Pesquisadora da Hemominas, Marina Lobato Martins explica que pacientes com transplante renal – chamados, no sistema de saúde, de “terciários” – são considerados de alta complexidade e com alto custo. “Eles têm dois grandes problemas que precisam ser contrabalançados, como quaisquer outros transplantados: o uso da imunossupressão, para evitar a rejeição ao novo órgão, e o maior risco de infecção viral”, esclarece.

Segundo a pesquisadora, há diversos vírus prevalentes na população, mas em estado latente. Quando um paciente transplantado recebe a terapia imunossupressora – que impede a rejeição do novo rim –, os microrganismos aproveitam a oportunidade para se reativar. “A infecção viral ativa pode danificar o órgão transplantado ou apresentar uma série de problemas, como atuar sobre as drogas imunossupressoras, levando à diminuição da vida útil do transplante ou à sua perda”, explica Marina Lobato.

De acordo com Luciana de Souza Madeira Ferreira Boy, também pesquisadora da Hemominas, a reativação pode acontecer tanto no órgão transplantado quanto no próprio paciente, que já tenha o vírus. O risco é enorme! Afinal, entre 80% e 90% da população adulta têm, por exemplo, o Citomegalovírus (CMV) e o Poliomavírus (BKV). Por isso, “a chance de uma infecção ativa, por causa da imunossupressão, é muito grande. E isso é um problema preocupante na área de transplante”, informa Marina Lobato.

Ciente de tal demanda, as pesquisadoras desenvolvem o “Estudo da infecção pelo Citomegalovírus humano (CMV) e pelo Poliomavírus (BKV) em pacientes com transplante renal: desenvolvimento de testes moleculares para detecção viral”, que visa avaliar o impacto da infecção por CMV e BKV em pacientes com transplante renal acompanhados pelo Centro de Nefrologia do Hospital Santa Casa de Belo Horizonte, ao longo de um ano. Os objetivos são desenvolver e padronizar o uso do teste molecular para detecção dos dois vírus, além de produzir protocolos de intervenção.

Além de Marina Lobato, coordenadora do estudo, e da mestranda Luciana Boy, o grupo conta com a participação de Pedro Macedo Souza, médico do Centro de Nefrologia da Santa Casa, e Edel Figueiredo Barbosa Stancioli, do Laboratório de Virologia Básica e Aplicada do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Integram a equipe, ainda, Larissa Silva Lentz Braga e Julia Grichtolik Cantagalli Paiva, bolsistas de iniciação científica – com financiamento da FAPEMIG – ligadas ao Serviço de Pesquisa, vinculado à Gerência de Desenvolvimento Técnico Científico da Hemominas.

Testes fundamentais

A equipe desenvolve o trabalho desde setembro de 2017. Atualmente, 67 pacientes são acompanhados. Segundo Marina Lobato, na primeira parte do estudo, é necessário observá-los ao longo de um ano, com realização de coletas de fluidos (sangue e urina) em seis ocasiões: primeiro, segundo, terceiro, sexto, nono e décimo segundo meses após o transplante. A pesquisadora explica que, em tal período, especialmente nos três primeiros meses, há maior possibilidade de reativação viral, posto que a imunoterapia é mais forte – com o intuito de evitar a rejeição do órgão.

Após recolher as amostras, realiza-se o teste molecular PCR (Reação em Cadeia da Polimerase), para verificar a presença do vírus. Diferentemente de outros exames, o PCR não precisa que o paciente forme anticorpos para detecção do vírus. “Ele é usado para que se detecte o genoma viral”, conta Lobato.

Velho conhecido na área da saúde, a PCR é amplamente utilizada em pesquisas. Cada vez mais, porém, o exame tem sido introduzido na prática clínica, de modo a se tornar obrigatório nas doações de sangue. Para a pesquisadora, no caso dos transplantes – e não apenas de rins –, seu uso também se revela muito importante. “Os pacientes transplantados estão com resposta imune muito enfraquecida, devido às drogas imunossupressoras. Se ocorrer reativação viral, portanto, ele não conseguirá produzir anticorpos. Com um teste molecular, identifica-se tudo isso”, ressalta.

Apesar de o estudo ainda estar em curso, Luciana Boy ressalta que já se verificou alta prevalência dos dois vírus nos pacientes. Segundo ela, analisaram-se, no total, 129 amostras de 37 pacientes. “O DNA do BKV foi detectado em pouco mais de 50% do material; o CMV, em 32%. Além disso, vimos maior prevalência – de ambos – no segundo mês, conforme esperado, pois, nos três primeiros meses, a imunossupressão está em seu nível máximo”, informa.

A pesquisadora conta, ainda, que, em alguns pacientes, foi possível intervir e realizar o tratamento adequado. “Tivemos muitas detecções, e conseguimos acompanhar, pelo prontuário, que o médico recebeu os resultados, interviu e houve melhora do paciente. De alguma forma, portanto, podemos dizer que, mesmo com pouco tempo, conseguimos contribuir”.

Marina Lobato destaca que a tecnologia do teste molecular pode, em Minas Gerais, evitar perda de transplantes ou complicações em pacientes, além de reduzir custos para o Sistema Único de Saúde (SUS) e auxiliar as equipes médicas. “Quando propusemos o estudo, percebemos carência dos médicos em testes diagnósticos, que ficam sem saber como agir. Afinal, eles não têm certeza se o possível quadro de piora se deve à rejeição do órgão, pelas próprias incompatibilidades, ou por algo que poderia controlar”, conta.

Prevenção

Mais do que detectar o vírus, contudo, o grupo pretende compará-lo, por meio de testes já utilizados, e quantificar cargas virais. “O que significa quantificar? Saber o nível de infecção da pessoa, pois tudo pode estar controlado. A quantificação da carga viral – ou o índice de infectividade – é importante para que o médico comece a tomar medidas diferentes, como trocar a intensidade de imunossupressão do paciente”, explica.

Ao fim do estudo, a partir da quantificação viral, os pesquisadores pretendem definir pontos de corte. Ou seja: o nível no qual o vírus se mostra como ameaça, para que o médico aja para evitar preocupações futuras. “Assim, poderemos estabelecer um protocolo para atendimento desse serviço de saúde no Hospital Santa Casa, levando-se em conta que cada instituição tem suas especificidades. Um estudo seria necessário para formulação de protocolos específicos. A carga viral serviria de recomendação à conduta dos médicos”, informa.

 

Gestor responsável: Assessoria de Comunicação Social